Quando buscamos no dicionário as palavras “expedição” e “urbana”, encontramos as seguintes definições: “expedição”: pessoas que viajam para determinado território; “urbana”: relacionada à civilização, ao que pertence a cidade.  

Por este motivo, as palavras que dão nome a esta atividade descrevem com precisão a missão do Instituto Jô Clemente (IJC) em apoiar as pessoas com Deficiência Intelectual e Transtorno do Espectro Autista (TEA) na ocupação dos territórios e na sua inclusão social plena.  

Visitar, explorar, aprender e reaprender são verbos que são praticados pelos participantes da atividade, promovendo descobertas de espaços externos e também de habilidades e desejos que estavam, até então, escondidos, e que no contato com o outro, sejam lugares ou pessoas, surgem com potência e possibilidades de serem alcançados.  

Além de habilidades e possibilidades subjetivas de futuro que se abrem por meio da prática das atividades, questões como a melhora da condição espacial, autonomia no ir e vir, condicionamento físico por meio de caminhadas, atenção, concentração no trajeto e trabalho em equipe são potencialidades desenvolvidas por meio da Expedição Urbana

  • O que inspirou para a criação do projeto? 

As expedições surgem com a vontade humana na pré-história e a migração do Homo sapiens em nosso planeta por necessidade de obter comida, caça ou dificuldades climáticas. Segundo Cathleen O’Grady (1977), as antigas expedições (migrações) chegaram ao continente americano há 23.000 anos e dão origem a toda a história que conhecemos atualmente. Os egípcios desenvolveram seus sistemas de expedições e ensinaram aos iniciados em todo o mundo, muito antes de os gregos começarem suas jornadas (Olade, 1986). Assim, na antiguidade, os gregos expedicionaram e usaram a cultura egípcia para se tornar referência nesta prática.  

A importância da expedição urbana se destaca também nos séculos atuais, haja vista a importância que os países e seus líderes dão às viagens feitas pelas nações. Um exemplo é a Expedição Científica promovida por Rondon-Roosevelt, que ocorreu entre 1913-1914, e o fortalecimento desse processo em 1924, ano em que foi realizada uma caravana formada por Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e o poeta franco-suíço Blaise Cendrars, entre outros, que percorreram as cidades históricas mineiras e acabaram entrando para os anais do Modernismo.  

Atualmente, nas grandes cidades, as expedições estão ganhando novos adeptos por meio de caminhadas nos bairros, visitas em museus e do crescimento do turismo em diversos países. Segundo o Formulário de Visitação Anual (2020), do Instituto Brasileiro de Museus – Ibram, 7.010.196 visitantes compareceram a 1.118 museus brasileiros.  

  • Como é explorada a Expedição Urbana no Instituto Jô Clemente (IJC)?  

Com os dados do Censo de 2010, quase 46 milhões de brasileiros (cerca de 24% da população), declararam ter Deficiência Intelectual ou algum grau de dificuldade em, pelo menos, uma das habilidades investigadas: como enxergar, ouvir ou caminhar. No Instituto Jô Clemente (IJC), nos serviços de Inclusão Profissional e Longevidade, uma das atividades do Emprego Apoiado é a Expedição Urbana para jovens, adultos e idosos com Deficiência Intelectual e Transtorno do Espectro Autista (TEA).  

Desde 2017, notamos um aumento dos termos relacionados à estratégia da Expedição Urbana para fortalecer junto às pessoas que acompanhamos nos serviços, com a elaboração de mapas mentais ou até mesmo usando sua relação com sua imagem a partir das selfies (fotos da própria pessoa), proporcionando um exemplo de apropriação da imagem cultural com as fotografias e possibilitando o registro do seu olhar de autonomia e inclusão documentada do aprendizado da pessoa com deficiência. 

Crédito: Uiliam Kawatoko 

Tais conteúdos são trabalhados em salas de aula após o retorno das atividades ou em salas temáticas dos próprios locais visitados. Os conteúdos são abordados e observados em rodas de conversas ou em atividades relacionadas aos temas de inclusão. Entre 2017 e 2020, o trabalho foi desenvolvido na unidade do bairro do Itaim Bibi, onde foi realizada a sensibilização das pessoas com Deficiência Intelectual por meio da descoberta dos espaços e sua lateralidade em torno dos locais culturais e de transporte para desenvolvimento de sua autonomia. Utilizamos mapas de locais visitados, aplicativo do Google Maps, Waze e o próprio Metrô/CPTM. Vale destacar que utilizamos vídeos e filmes como “A Volta Ao Mundo Em 80 Dias”, de 1956 e “Volta Ao Mundo Em 80 Dias- Uma Aposta Muito Louca”, de 2004, para incentivar e despertar o desejo da expedição nas pessoas acompanhadas pelos Programas. 

Crédito: Uiliam Kawatoko / Fonte: Imagem da atividade de autonomia e educação do trajeto das linhas do metrô. 

A partir de 2020, com a pandemia, foram utilizadas novas ferramentas tecnológicas de visitação on-line em museus, aos poucos, retornamos em 2021 com a sensibilização a partir do retorno das visitações presenciais. Assim, com turmas formadas de 5 a 20 pessoas, com foco em Expedição Urbana e visitações em espaços culturais, empresas e locais fora da cidade de São Paulo, mantivemos as visitas on-line aos museus, como alternativa metodológica da ação.  

Vale relembrar que os espaços culturais, projetos e visitas nas empresas não fazem parte da rotina diária das pessoas com Deficiência Intelectual e/ou Transtorno do Espectro Autista (TEA), mas essas visitas contribuem para quebra de paradigmas sociais e auxiliam na inclusão plena na sociedade.  

“Mas onde se deve procurar a liberdade é nos sentimentos. Esses são a essência viva da alma”– Johann Goethe. 

A pessoa com deficiência, a partir do seu relacionamento com o mundo, os seus olhares buscam locais para tirar fotos diferentes de um fotógrafo profissional, construindo imagens que fortalecem seu mapa mental e sua autonomia. Isso resulta em levar seus familiares individualmente para uma expedição urbana pela cidade, campo ou praia, usando sua autonomia e atuando como um “guia” de seus familiares. No passeio, são construídas imagens do seu ponto de vista por meio do conto de estórias e reprodução do que pensam utilizando a escrita ou desenho sobre os locais explorados da cidade. 

Crédito: Uiliam Kawatoko / Imagem da figueira asiática (Ficus benjamina). 

Referências 

GONZALEZ,F.,MARTINEZ,V., SCOTTON,A. Emprego Apoiado-Uma Leitura Psicanalitica.São Paulo: AGBOOK,2014 

CATHLEEN O’Grady. Migração para o continente americano demorou o suficiente para a evolução acontecer durante o caminho, 17/02/2017, 12H18
https://arstechnica.com/science/2017/02/migration-to-america-took-long-enough-for-evolution-to-happen-on-the-way/

YEYE Akilimali Funua Olade: Os gregos roubaram a filosofia dos africanos,17/12/2014 https://www.geledes.org.br/os-gregos-roubaram-filosofia-dos-africanos-por-yeye-akilimali/

MAGNANI, José Guilherme Cantor. Expedição São Paulo 450 anos: uma viagem por dentro da cidade. Expedição São Paulo 450 anos: uma viagem por dentro da metrópole. Tradução. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 2004. Disponível em: https://biblio.fflch.usp.br/Magnani_JGC_55_1468483_ExpedicaoSaoPaulo450Anos.pdf.